Matos espontâneos: relíquias em nossos jardins

Matos espontâneos: relíquias em nossos jardins
Beldroega (Portulaca oleracea)
Gabriela Pastro

A ideia deste post surgiu assistindo uma das aulas de Jardinagem Gastronômica das herboristas Silvia e Sabrina Jeha aqui no viveiro, elas sempre enfatizam a importância destas plantas para os nossos jardins. Esperamos que aproveitem e se surpreendam, pois…

Nossos jardins escondem relíquias inestimáveis…

Geralmente, não nos damos conta das plantas que crescem espontaneamente ao nosso redor. Estas, que muitos chamam de ervas daninhas, tiriricas ou pragas, escondem poderes medicinais e culinários que só um hortelão observador conhece.

Elas são caracterizadas por rápido crescimento, ótima adaptação climática, fácil dispersão e germinação e alta longevidade, mesmo em solos mal cuidados. Estas plantas são boas indicadoras da condição do solo, pois cada uma surge em uma condição específica.

Porém…

Apesar de todas estas características, elas são temperamentais. Muitas vezes queremos fazer um cultivo forçado, porém isto não acontece.

Existe uma variedade muito grande de matos que crescem espontaneamente e suas presenças variam de região para região e de solo para solo. As que mais encontramos aqui no viveiro Sabor de Fazenda são:

  • Beldroega (Portulaca oleracea): cresce em solo rico em matéria orgânica, portanto ter ela crescendo espontaneamente em nosso jardim é um bom sinal. Esta espécie é chamada de beldroega de verão, nas regiões mais frias, como Argentina, cresce também a beldroega de inverno (Claytonia perfoliata). Em nossas condições, suas sementes germinam o ano todo. Possui propriedades diuréticas e ajuda nos movimentos peristálticos do intestino. As folhas apresentam um sabor picante e podem ser consumidas cruas em saladas, picles, bolinhos, tempuras, salteadas e em omeletes e sanduíches.
Beldroega (Portulaca oleracea) ©Sabor de Fazenda
Beldroega (Portulaca oleracea) ©Sabor de Fazenda
  • Mentruz (Coronopus didymus): possui sabor bem mais picante que a beldroega. É consumida na forma de saladas e para temperar aguardentes. Cresce frequentemente na região Sul do Brasil e propaga-se apenas através de sementes. Não deve ser confundida com a planta mastruz (ou erva de Santa Maria).
Mentruz (Coronopus didymus) ©Sabor de Fazenda
Mentruz (Coronopus didymus) ©Sabor de Fazenda
  • Mastruz ou erva-de-santa-maria (Chenopodium ambrosioides): possui propriedades vermicidas e é utilizada popularmente como inseticida doméstico para afastar pulgas. Propaga-se exclusivamente sob a forma de sementes. É encontrada em praticamente todo o país, porém raramente apresenta grandes infestações. As folhas são usadas como condimento, principalmente no México, como para temperar pratos à base de feijão, cogumelos, milho verdes e em sopas.
Mastruz ou erva-de-santa-maria (Chenopodium ambrosioides) ©Sabor de Fazenda
Mastruz ou erva-de-santa-maria (Chenopodium ambrosioides) ©Sabor de Fazenda
  • Caruru (Amaranthus spp.): também conhecida como amaranto, é muito rica em ferro. Suas folhas podem ser consumidas, porém somente cozida. As sementes torradas são deliciosas em saladas e sucos. Geralmente, é encontrada em locais ricos em matéria orgânica, portanto é uma planta indicadora de solos bons, ricos em potássio e bem drenados. Existem cerca de 7 espécies chamadas de caruru, sendo que a Amaranthus lividus é a que mais encontramos aqui no viveiro
Caruru (Amaranthus deflexus) ©Sabor de Fazenda
Caruru (Amaranthus spp.) ©Sabor de Fazenda
  • Dente de leão (Tanaxacum officinale): é um mato espontâneo típico de inverno. Suas folhas têm um sabor amargo e podem ser utilizadas em saladas. Devem-se usar as folhas mais jovens, pois as mais velhas são muito amargas e duras. Possui propriedades digestivas.
Dente-de-leão (Taraxacum officinale) ©Sabor de Fazenda
Dente-de-leão (Taraxacum officinale) ©Sabor de Fazenda
  • Serralha (Sonchus oleraceus): parente próximo do dente-de-leão, porém possui um porte maior. Pode ser consumida em saladas ou refogada. Propaga-se exclusivamente através de sementes e vegeta nos períodos de inverno-primavera, principalmente.
Serralha (Sonchus oleraceus) ©Sabor de Fazenda
Serralha (Sonchus oleraceus) ©Sabor de Fazenda
  • Tansagem (Plantago tomentosa): razoavelmente frequente nas regiões Sul e Centro-Oeste, sendo a espécie de Plantago mais comum no Brasil. Cresce em solos pouco movimentados, sem uso e mais intensamente durante os períodos de temperaturas mais amenas do ano. Tolera solos de baixa fertilidade e arenosos. Muito utilizada na medicina popular.
Tansagem (Plantago tomentosa) ©Sabor de Fazenda
Tansagem (Plantago tomentosa) ©Sabor de Fazenda

Outras plantas consideradas espontâneas que podemos encontrar no nosso jardim:

As plantas espontâneas, além de serem usadas na culinária e medicina, são muito importantes para o controle ecológico da horta. A presença delas funciona como um atrativo para pragas e doenças e acaba deixando nossas plantas cultivadas livres deles. Olhem com a serralha está repleta de pulgões, com isto, as plantas do entorno ficam livres deles:

Serralha infestada por pulgões ©Sabor de Fazenda
Serralha infestada por pulgões ©Sabor de Fazenda

Aqui no viveiro nós deixamos estes matos crescerem livremente nas áreas abaixo das bancadas, assim eles protegem nossas mudas comerciais que ficam em cima das bancadas. Vejam a grande variedade de matos espontâneas e como eles estão robustos…um sinal de bom solo:

Plantas espontâneas debaixo das bancadas ©Sabor de Fazenda
Plantas espontâneas debaixo das bancadas ©Sabor de Fazenda

O grau de desenvolvimento da planta espontânea é também um bom indicador da qualidade do solo. Em solos ruins estas plantas apresentam-se pouco desenvolvidas e muito rapidamente apresentam floração, por isso plantas de pequeno porte, com folhas pequenas e com muitas florações são típicas de solos pobres e mal cuidados. Já em solos bons, estas plantas alcançam um porte maior e a floração aparece mais tardiamente. Vejam nas imagens abaixo o picão-preto de uma área de solo ruim (esquerda) e outro de solo bom (direta):

Por isto tudo, devemos reverenciar a presença destas relíquias em nossos jardins. De maneira controlada, elas sempre serão muito bem vindas na horta e na nossa cozinha. Lembrando que, se você não tem certeza de qual espécie se trata, não consuma e também nunca utilize matos espontâneos que cresceram nas ruas e calçadas.

Este post não seria possível sem os conhecimentos do nosso querido chefe do viveiro, Ronaldo, a sua sabedoria de anos está sempre nos enriquecendo…

Ronaldo - chefe do viveiro ©André Andrade
Ronaldo – chefe do viveiro ©André Andrade

Referência bibliográfica:

Lorenzi, Harri. Plantas daninhas do Brasil: terrestres, aquáticas, parasitas e tóxicas. Nova Odessa, SP: Instituto Plantarum de Estudos da Flora, 2008.

Av. Nadir Dias de Figueiredo, 395 – Vila Maria, São Paulo

Este post tem 30 comentários

  1. fany s.guarana

    gostaria de saber mais sobre uma que infesta meus vasos, que se parece com um trevo, agora fiquei na dúvida, se tem utilização ou não .. ela na aparece nas usadas como exemplos no post. grata a todos !!!

  2. luiz antonio vieira

    E muito gratificante e de grande valia saber que ainda existem gente amante da natureza fico extremamente agradecido pela sua vultuosa colaboração pela flora do nosso brasil

  3. Vera Costa Fogaça

    Muito agradecida pelas informaçoes tao ricas e interessantes…… Pensando bem !? “!nada é praga ” em relaçao a plantas , pois outras utidades elas tem e esse vocabulo ( praga) deveria ser banido dos livros de botanica ;pois esse tipo de classificaçao só aumentará a quantidade de agrotóxico para eliminá _las o que causa um perigo no ambiente sem necessidade além de uma possível extinçao. Entao avisa a turma. ….Bjs sss ” vida longa e próspera ” e agua potavel para beber a todos .

  4. Vera Costa Fogaça

    Sobre a Portulaca oleraceae ( beldroega ) no livro de plantas medicinais do Henry Lorenzi dis que tem nela a dopamina que é a substancia que falta a quem tem mal de alzheimer . Nao sei ate que ponto isso é uma verdade. ,!?

  5. Vera Costa Fogaça

    Achei um pé de maracuja em que seus frutos sao menores que jaboticaba. Quando maduros sao roxos e mancham a mao mais sua tinta é fotosensível e com o sol assim como a das amoras desaparecem. Gostaria de saber se esse maracujazinho é comestível

  6. Vera Costa Fogaça

    Gostaria de saber se o frutinho cor de rosa da flor de maio é comestível .? Pois os cactos que possuem fruto dessa cor sao muito saborosos. Obrigada pela atençao e por repartir seus conhecimentos .Amei conhece-los.

    1. Olá, Vera. Até onde sabemos a flor de maio não é comestível.

      Ficamos felizes de saber que você está gostando de nossos textos.

      Atenciosamente.

  7. Marinês Aparecida da Silva Gaedtke

    Olá!!!!!!
    Neste fim de semana participei de um curso Delicias da Culinária Saudável e a pessoa que ministrou falou das PANCS, amei, pois tem várias que eu já uso faz algum tempo como Ora-pro-nobis, caruru, trapueroba, trançagem, capuchinha, peixinho da horta, picão, urtiga, etc….
    Grata pelas informações.
    Sucesso
    Marinês

    1. Marinês, que bom que você está entrando na área das PANCs! Temos um curso aqui chamado Jardinagem Gastronômica – Especial PANC. Falamos de muitas espécies diferentes e de como cultivá-las e utilizá-las na culinária. Atenciosamente.

  8. Olá, parabéns, informações importantíssimas!!!! Poderia me informar onde posso comprar semente orgânica de beldroega? Quero plantar no meu quintal.
    Grata, Elza.

    1. Olá, Elza. Gratidão. Você consegue comprar aqui no viveiro (Vila Maria, São Paulo), feiras do Parque da Água Branca e Modelodromo (São Paulo). Ou voc~e pode solicitar envio pelos correios, mandamos em caixas com 18 unidades. Para maiores informações, por favor, mande um e-mail para sabordefazenda@sabordefazenda.com.br. Abraços, Gabi.

  9. Raquel

    nossa amei esse post! tenho muitas e jogava tudo fora!! gratissima pelas dicas!!

  10. JESSEIA VALIM

    amo saber q eu comia na infância, na roça hj é motivo de pesquisa e está alcançando muitas pessoas através da internet. Parabéns pelas informações e comprei o livro por causa das reportagens.

  11. FAZEM APROXIMADAMENTE 28 ANOS QUE ESTIVE NA VILA MARIA,sÃO PAULO E CONHECI O SABOR DE FAZENDA,FICO FELIZ EM SABER QUE CONTINUAM NA LUTA,FIQUE MUITO SUPRESO EM ACHAR VOSSOS SAITE,.UM BEIJO A TODOS VOCÊS

  12. Rejane

    São as Pancs, o biólogo Valdeli Kinup publicou um excelente livro. Vele a pena adquirir um exemplar.

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